Nesse dia eu me lembro de vários detalhes, mas bem ali na saída do túnel - esqueci o nome agora, puxa - que sai de Larangeiras. Me lembro do nosso carro Fiat cor branca - era comprido -entrando por aquelas ruas estreitas do morro de Santa Teresa. Não sei se lembram mas tem uma ladeira que faz um "U" literalmente, mas eu sempre estava por lá pra ajudar meu pai com campanhas políticas na época - onde morava o nosso amigo Washington Machado. Não vou me recordar por agora o motivo de, mas, claro, além de mim, também estavam meu pai, minha mãe, meu irmão e mais duas primas minhas.
Só me lembro de uma coisa, de ficar percorrendo aquelas ruas com o carro, sem saber exatamente pra onde. Me lembro até de um momento em que paramos bem no alto do morro, dava pra ver tudo lá embaixo. Cada curva estreita que eu ficava preocupada. Mas meu pai tinha uma ótima direção e sabia fazer excelentes manobras. Tão quanto minha mãe.
Mas o momento inesquecível foi pra sair do morro.
Numa ladeira íngrime com uma curva fechada, meu pai pensou em fazer a volta - mas como fazer uma manobra dessas? Estava complicado. Tínhamos que descer a ladeira de qualquer forma. Nessa hora ele teve a idéia de descer a ladeira com o carro de ré. De um forma muito delicada e arriscada pra todos nós, ele conseguiu. Nesse momento já estávamos começando a descer a ladeira quando o carro 'morre' bem na curva da ladeira estreita. Meu pai pediu que minha mãe e as crianças saíssem do carro - ele sempre teve (até hoje tem) coragem pra fazer as coisas sozinho, em qualquer sintuação. Me recordo perfeitamente de dois jovens, na faixa dos 25 anos, cada um com um fuzil que no meu olhar era maior que uma espada. Mas nem passava na minha cabeça que eram traficantes do morro inicialmente. Só lembro do olhar agoniado de minha mãe abraçando a gente quanto mais eles se aproximavam.
Eles perguntaram se a gente tava com problemas. Minha mãe disse que estávamos perdidos. Me lembro deles dizerem: -se preocupa não que a gente ajuda aí. Ele vai virar se descer a ladeira de ré. Sentia as mãos dela tremendo. Nesse momento meu pai coloca a cabeça pra fora do carro e pede à minha mãe que descesse a ladeira conosco - nós 4. Me lembro do olhar aflito dela ao deixar meu pai sozinho com os traficantes. Eu olhei tudo de longe.
Um pouco mais abaixo eu via as manobras do carro, tudo com cautela e aos comandos dos 'moços'. Fazer um giro de 180º pro carro ficar de frente foi o maior aperto que eu senti passar. A cada minuto eu tinha a sensação que o carro ia virar e 'adeus'... Me recordo de minha mãe dizer: - ai meu senhor eles vão matar meu marido!
Depois de quase meia hora de agonia o carro consegue ficar de frente. Mas e aí? Eu fiquei com meu irmão e minhas primas, ainda pequenas enquanto minha mãe sobe a ladeira correndo pra confirmar se estava tudo bem. Eu vi aqueles rapazes com as armas na mão e pensei: - que será que eles vão querer fazer agora com meus pais? Nessa hora eu vi que tinha alguma coisa errado e só passava na minha cabeça: "- desce rápido papai..., mamãe...!"
Eu só via movimentos de afirmação com a cabeça, mãos nervosas e minutos depois minha mãe entra dentro do carro com meu pai e descem a ladeira devagar, ainda sob a mira das armas apontadas para cima, mas prontas.
E o mais engraçado. Quando finalmente descemos a ladeira e todos de novo dentro do carro, minha mãe pergunta à um bêbado encostado num poste como fazia pra pegar a rua principal de volta. Ela me disse que o tal falou: - sobe essa ladeira de novo e... Nessa hora minha mãe dá um 'vá te catar seu bêbado desgraçado' e seguimos em frente. No final de tudo conseguimos voltar à via principal.
É isso aí como as coisas acontecem Não é todo traficante que dá uma 'mãozinha'...
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