sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Um Raio-X

"- Meu pai morreu com uma facada no pescoço e minha mãe é alcoólatra. Fico aqui nas ruas porque não suporto ficar em casa." Esta foi uma frase de um jovem de aproximadamente uns 17 anos, com o tornozelo enfaixado e varias moedas de 5 e 10 centavos nas mãos nervosas, hoje ao se aproximar de mim e minha mãe enquanto olhávamos uma vitrine.

Agora me vem à cabeça: quando muitos, crianças, jovens, adultos nos abordam em nosso dia-a-dia, com doces, balas, ou pedindo um favor - passa-se calado, ou "não tenho" - dificilmente e não paramos pra pensar até, no que está por trás, na realidade, de traumas que com o passar do tempo se transforma em comum, sob à sua volta. E como pensar "mais nada me atinge ou interessa, só quero sobreviver (de alguma forma)".

Minha mãe o tratou com carinho e sem medo à este jovem hoje, dando-lhe até um singelo abraço, que se despediu e ainda perguntou à minha mãe olhando para mim "-é sua filha? bonita."
Eu sorri cordialmente e continuamos a caminhar para casa.

"-Tia, sabe como tirar esse chip do celular? Tira pra mim." Um menino de 12 anos, pelo que minha mãe disse. Entrou pela parte de trás de ônibus e foi pedindo às pessoas que tirasse o chip de um telefone que acabara de roubar. "-Ele deu sopa tia, ai eu roubei." Disse falando para minha mãe, que estava junto do meu irmão autista. Minha mãe ainda disse que não sabia mexer, que só eu sabia - eu não estava nesse dia - e que não sabia como tirar. Esse mesmo menino ainda disse, quando viu meu irmão "-Tia, ele é especial ?". Minha mãe confirmou com a cabeça. Minutos depois ele desistiu e saiu do ônibus.

Muitos tem expressão de medo, de nervoso evidentes. Eu e minha mãe não. Desde criança via fatos assim, e minha mãe sempre dizia para nunca correr. Eu obedecia. Morando aqui no bairro, vários já são conhecidos. Mas não nego que tenho 'sorte' em sintuações cotidianas.

Como o papel de um assistente social. Mas como cidadãos comuns. Faça lembrar da mãe que ficou sob a mira do bandido naquelas areias por horas, conversando com ele, perguntando de sua vida. Muito maior é a agonia e preocupação nesse caso, mas olha como de uma certa forma se comparam com os fatos acima - comuns na nossa realidade social.

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Violência Doméstica

Hoje, quando fui com minha mãe ao supermercado, nos deparamos com uma sintuação que na maioria das vezes é restrita à quatro paredes e as mulheres ficam inibidas com a violência dentro de casa: agressões verbais, físicas, tapas, ameaças, etc.

Esta senhora que minha mãe encontrou cuidava de um homem que tinha sinais de agressão (esquizofrenia). O que mais me deixou em suspensa foi o fato de nem o médico que o atendia nem os pais, na época, terem sequer se manifestado acerca de uma interdição - apegos materiais eu acho - e, após a morte dos pais esta mesma senhora se casou com o qual convive hoje.

É claro que a esquizofrenia possui uma escala de grau, e por conseguinte, não vou afirmar o que se passa em minha mente, mas tendo em vista os tratamentos médicos, pelo menos um indício de controle da doença há.

Hoje ela vive numa casa de horrores - antes mesmo de sair para fazer compras, ela já tinha sido agredida no rosto. Minha mãe e eu ouvindo a história - logicamente não em ordem cronológica - mas voltando ao passado para explicar a convivência tão lastimante e perturbante da vida conjugal comum. Fato, ela sabia da existência da doença. E uma coisa que no direito internacional já é mansa e pacífica na área penal é não dar apego à consciência do agente quando dentro de um fato se torna obscura e confusa o aspecto subjetivo, o que no direito brasileiro é bem explanado teoricamente.

E essa história faz pensar não só da violência que ocorre em razão de doenças, mas de motivos fúteis, desproporcionais e mais ainda, um 'desleixo' na maioria das vezes, consciente da mulher que vive sob constante e iminente perigo que por muitas vezes só recorre à uma autoridade judicial quando chega a um ponto insuportável, que comprova que por amor ou compaixão, nós mulheres 'damos' o nosso corpo, até limite dele ou até mais, se sobrepondo à razão da dignidade e integridade psíquica, corporal e moral.


Art. 129, § 9º CP regulado pela lei Lei 11.340/06 (lei Maria da Penha)