"- Meu pai morreu com uma facada no pescoço e minha mãe é alcoólatra. Fico aqui nas ruas porque não suporto ficar em casa." Esta foi uma frase de um jovem de aproximadamente uns 17 anos, com o tornozelo enfaixado e varias moedas de 5 e 10 centavos nas mãos nervosas, hoje ao se aproximar de mim e minha mãe enquanto olhávamos uma vitrine.
Agora me vem à cabeça: quando muitos, crianças, jovens, adultos nos abordam em nosso dia-a-dia, com doces, balas, ou pedindo um favor - passa-se calado, ou "não tenho" - dificilmente e não paramos pra pensar até, no que está por trás, na realidade, de traumas que com o passar do tempo se transforma em comum, sob à sua volta. E como pensar "mais nada me atinge ou interessa, só quero sobreviver (de alguma forma)".
Minha mãe o tratou com carinho e sem medo à este jovem hoje, dando-lhe até um singelo abraço, que se despediu e ainda perguntou à minha mãe olhando para mim "-é sua filha? bonita."
Eu sorri cordialmente e continuamos a caminhar para casa.
"-Tia, sabe como tirar esse chip do celular? Tira pra mim." Um menino de 12 anos, pelo que minha mãe disse. Entrou pela parte de trás de ônibus e foi pedindo às pessoas que tirasse o chip de um telefone que acabara de roubar. "-Ele deu sopa tia, ai eu roubei." Disse falando para minha mãe, que estava junto do meu irmão autista. Minha mãe ainda disse que não sabia mexer, que só eu sabia - eu não estava nesse dia - e que não sabia como tirar. Esse mesmo menino ainda disse, quando viu meu irmão "-Tia, ele é especial né?". Minha mãe confirmou com a cabeça. Minutos depois ele desistiu e saiu do ônibus.
Muitos tem expressão de medo, de nervoso evidentes. Eu e minha mãe não. Desde criança via fatos assim, e minha mãe sempre dizia para nunca correr. Eu obedecia. Morando aqui no bairro, vários já são conhecidos. Mas não nego que tenho 'sorte' em sintuações cotidianas.
Como o papel de um assistente social. Mas como cidadãos comuns. Faça lembrar da mãe que ficou sob a mira do bandido naquelas areias por horas, conversando com ele, perguntando de sua vida. Muito maior é a agonia e preocupação nesse caso, mas olha como de uma certa forma se comparam com os fatos acima - comuns na nossa realidade social.
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