quarta-feira, 3 de setembro de 2008

INFÂNCIA E A SUA 'LEI'

Quando era criança, meu dia-a-dia era visitando delegacias, parentes no crime, assassinatos. Me lembro que enquanto meus pais estavam dentro da delegacia que tem no Catete, eu peguei meus patins na mala do carro e fiquei mais de 5 horas do lado de fora, esperando o tempo passar. Nada de mais se passava na minha cabeça. Era apenas brincar. Hoje fico pensando o que se passou de verdade ali dentro. Meus pais dão uma versão dos fatos ocorridos, em muita das vezes minha mãe que intervinha diante do delegado argumentando, dramatizando, às vezes brigando quando ouvia do lado de fora.

Em outra ocasião, um parente nosso foi preso por roubo - usuário de drogas - e a polícia o levou e ninguém sabia pra onde. Me lembro perfeitamente de meu pai no volante, o nosso amigo advogado Washington, minha mãe, à cada delegacia da cidade entravam e saiam: - vamos seguir. Passamos uma madrugada interia durante as ruas da cidade do Rio. Eu fiquei no banco de trás, às vezes com sono, mas acordada. Parecia uma aventura pra mim. Eu me divertia vendo a madrugada da cidade, à qual já estava acostumava quando saíamos antes do sol nascer em plena estrada à nossa casa de campo na Pedra de Guaratiba. O encontramos na delegacia da Barra da Tijuca. Nao lembro dessa parte muito bem.

E mais um belo dia, eu no meu quarto e de repente chega esse mesmo parente nosso baleado - achei estranho a sintuação. Meus pais dizem que a polícia estava trás dele e atiraram nele. Meus pais foram onde ele estara escondido e decidiram levá-lo até em casa, e cuidar dos ferimentos até que se recuperasse totalmente. Que leis vão passar na cabeça de criança? Era meu primo, e estávamos ali para cuidar dele. Agora, claro, se descobrissem naquela época, meus pais seriam presos por esconder um criminoso. Para mim era uma sintuação delicada, vendo de longe. E conversava com ele sobre o que ele fazia. Passava horas ali observando se ele estava realmente bem. Devia ter uns 9, 10 anos.

Ele morreu. Me recordo do que minha mãe disse. A polícia cercou o morro onde eles viviam e iam matar um outro primo meu, envolvido nas drogas. Meu primo se pôs na frente dele e disse que preferia que o matassem. Assim foi feito. Só me recordo da dor da mãe deles, irmã de minha mãe, que os cuidou com tanto carinho e se perguntava porque a criminalidade, porquê eles, seus filhos. A polícia uns tempos depois conseguiram matar meu outro primo.

Eu frequentava os morros mais perigosos da década de 90, e vendo os abismos, às vezes me dava medo, mas não de tiros e polícia, mas especialmente de um abismo onde meu pai estacionava o carro, as rodas bem perto daquele 'poço' profundo. Eu circulava pelas ruelas sem medo, brincado de bicicleta e de esconde-esconde.

Hoje não temos mais carro, nem subimos morros, e hoje não tenho aquela coragem de criança, de enfrentar as madrugadas em claro. Mas fica a dúvida subconsiente de si mesma e perante nossas leis penais hoje compreendo o que naquela década hoje só fez se agravar ainda mais.

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